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João de Deus

João de Deus Ramos

N. 08 Mar 1830 S. Bartolomeu de Messines
F. 11 Jan 1896 Lisboa

Poeta Lírico, Pedagogo

De onde vem...
Coimbra: Revela-se o poeta!
Rumo ao Sul, rumo a Deputado.
Em Lisboa... marido, escritor e pedagogo.
"Fique em silêncio eterno a minha lyra"

De onde vem...

João de Deus nasceu em São Bartolomeu de Messines, no concelho de Silves, a 8 de Março de 1830. Filho de Pedro José dos Ramos e Isabel Gertrudes Martins, humildes comerciantes nesta freguesia, é baptizado no dia 16 seguinte pelo pároco Joaquim Raimundo Marques, na Igreja Matriz (em frente à casa onde cresceu), tendo por padrinho o alferes António Nogueira. João de Deus nutria uma grande amizade pelos irmãos e meios-irmãos. Teve a sua primeira instrução com o pároco da aldeia ingressando depois no Seminário de Faro nas disciplinas de Aritmética, Latim, Português. Cedo percebeu que não queria seguir a via sacerdotal e chegava a ser chamado à atenção por não vestir fato domingueiro, digno de entrar na igreja.

Acabados os estudos no Seminário de Faro segue para Coimbra realizando os exames de Latim, Doutrina, Francês, Filosofia, Aritmética e Geometria no Seminário de Coimbra, os estudos necessários à entrada na Universidade no curso de Direito. Estamos em 1849 quando a 19 de Setembro morre o seu meio irmão João com 24 anos, em Aljezur.


Coimbra: Revela-se o poeta!

No ano lectivo de 1849 / 1850, agora com 19 anos, matricula-se no 1º ano do curso de Direito na Universidade de Coimbra. Em homenagem ao seu padrinho António Nogueira, faz a matrícula com o nome de João de Deos de Nogueira Ramos. Em 1850 volta para São Bartolomeu de Messines a fim de ajudar a sua meia irmã Maria Justa que se encontrava doente e que ele muito prezava perdendo assim um ano lectivo (no qual nem se matriculou). Durante a sua estadia no Algarve visita um irmão seu que morava então em São Brás de Alportel e aí conhece Maria Cândida, mulher a quem dedica a sua primeira poesia intitulada "A Pomba".

Retorna a Coimbra matriculando-se no 2º ano de Direito em 1851 / 1852 mas abandona o nome "Nogueira" por considerar o padrinho não digno desta homenagem e assina João de Deos do Nascimento Ramos. Escreve a "Oração" (publicada apenas em 1855) e a prosa "Lia". Passa então, aos 22 anos, para o 3º ano. João de Deus sente a vida boémia de Coimbra e vive-a. Apaixona-se por Raquel a quem dedica uma poesia, compõe músicas e letras de improviso tocando ele próprio viola e cantando. Textos referem que era tocador de "Banza", mas "Banza" em Coimbra nessa época não tinha o mesmo significado que em Lisboa e, mesmo por um texto de Teófilo Braga, sabe-se que ele tocava "viola de arame", ou seja, Viola Toeira, a viola típicamente tocada em Coimbra e que até ao fim da sua vida conservou. Em 1853 / 1854 matricula-se no 4º ano, mantendo ainda o nome João de Deos do Nascimento Ramos, mas este ano chumba por faltas. Volta então a matricular-se no 4º ano de Direito em 1854 / 1855, e no 1º ano de Filosofia. É durante este ano lectivo que escreve "O Tumulto" e a prosa "Thereza". Em 15 de Julho de 1855 publica a "Oração", escrita pela primeira vez em 1851, na Revista Académica.

Em 1858 conhece Anthero de Quental, autor de "A propósito de um poeta", texto que descreve o poeta João de Deus que Anthero muito admirava. João de Deus matricula-se no 5º ano agora com o nome João de Deus Ramos Nogueira, completanto então o seu curso de Direito a 13 de Julho de 1859, ano em que começa a escrever para “o Instituto” e para a "Estrêa Litterária", onde publica "Sete e Nove". Em 1859 / 1860 escreve "A Lata" (poema satírico), a "Marmelada", "Maria" (prosa), "Francesca de Rimini" e "Herrmann" (publicados no "O Instituto"), e colabora em "O Atheneu". Mantendo-se em Coimbra, em Abril de 1860 escreve para "O Académico", mantém a colaboração com "o Instituto", faz traduções de livros estrangeiros para português e a 6 de Junho do mesmo ano participa na Comissão de Homenagem a Luís de Camões. Apresenta-se também nas reuniões da Academia por motivos da visita do Rei D. Pedro, reuniões estas com o intuito de abolir a Capa e Batina por serem consideradas um traje jesuíta. João de Deus continua a sua escrita colaborando no quinzenário "Phosphoro". Em 1861, ajuda na criação da Sociedade do Raio, publica "Pachá Janina" no mesmo âmbito desta sociedade e escreve a prosa "Damiana" e "O que é a poesia". Começa a publicar no jornal "O Bejense" em Outubro deste ano. É também durante estes anos de 1861-1862 que colabora no Tira Teimas.


Rumo ao Sul, rumo a Deputado.

Aos 26 anos muda-se para Beja, onde fica algum tempo hospedado na Estalagem do Vargas, convidado para redator do jornal "O Bejense", função que desempenhou até 1864. Homem simples e desprendido de bens materiais, recusou ordenado, bastava que lhe pagassem as despesas e o tabaco, por vezes ficando em casa de quem lhe desse guarida oferecendo como agradecimento desenhos e poesias de sua autoria. Em 1863 publica, em "O Bejense", "Lusíadas e a Conversação Preambular", artigo que contribuiu para a dissolução do ultra-romantismo entrando em dissidência com a escola Coimbrã, questão que vem a estoirar em 1865. Em 1863 / 1864 colabora também no semanário "Attila" de Coimbra. Em 1864 regressa à sua terra natal, terra esta que o preenchia de tranquilidade, onde podia contemplar a Natureza e sentir-se feliz como se pode ler numa carta sua: "... vejo a felicidade no campo Oh!...". Entre 1865 e 1866 desloca-se para Évora e colabora na "Folha do Sul" , periódico de Montemor-O-Novo, no "Scholastico Eborense", de Évora e no "Campeão do Alentejo", de Portalegre. Contudo, surpreendido pela Questão Coimbrã em 1865, e considerando as polémicas neste jornal já esgotadas, abandona a "Folha do Sul" e dedica-se a São Bartolomeu de Messines. Escreve a prosa "Marina" e "Carta a Germano Meyrelles" e encontra dois velhos amigos seus: José António Garcia Blanco e Domingos Vieira. Estes, apreciando o caracter e inteligência do poeta, resolvem apresentar a 22 de Março de 1868 o seu nome para candidato independente a deputado pelo círculo de Silves à Assembleia Nacional, cargo este que João de Deus não ambicionava, diz-se mesmo que chegou a montar um burro para ir de aldeia em aldeia pedindo que não votassem nele. No dia 5 de Abril há um desempate com outro candidato mas João de Deus é eleito deputado, prestando juramento nas Cortes a 18 de Maio de 1868, agora com 38 anos.


Em Lisboa... marido, escritor e pedagogo.

Chegado a Lisboa alugou um quarto na Rua dos Duradouros, na Baixa. Frequentava o Café Martinho em tertúlias diárias. A vida parlamentar não era de todo ambiente para o nosso poeta. Em 1869, não se identificando com as suas funções/deveres, falta às sessões parlamentares e declara: "que diacho querem vocês que eu faça no parlamento? Cantar? Recitar versos? Deve ser (...) Gaiola talvez sirva para eu lá dormir a ouvir a musica de outros pássaros. Dormirei com certeza!", declaração esta publicada no "Correio da Noite", altura em que deixa o parlamento.

Publica a obra poética "Flores do Campo" e "Ramo de Flores", editadas pelo seu amigo Garcia Blanco. É também neste ano de 1869 que conhece Guilermina Bathaglia Ramos, sua futura esposa, e o casal muda-se para uma moradia de um tio dela na Rua do Salitre. Em Dezembro deste ano de 1869 nasce a sua filha Maria Isabel Bathaglia Ramos. No ano seguinte, com agora 40 anos, é convidado pelo Sr. Rovere da Casa Rolland a criar um método de leitura de língua portuguesa, e aqui começa um grande projecto que iria demorar 6 anos.

Em 1872, a 18 de Agosto, morre Pedro José dos Ramos, seu pai. Para o sustento da família, continua a traduzir livros estrangeiros bem como teatros (como a comédia de François Ponsard: "Horácio e Lydia"), a escrever sermões para pregadores, a compor hinos sagrados, rimas para rebuçados e a coser à máquina para um estabelecimento do Chiado, escreve também a obra satírica "O Indígena". A 20 de Janeiro de 1874 morre Isabel Gertrudes, mãe de João de Deus. O casamento com Guilhermina realiza-se finalmente a 4 de Maio deste ano na Igreja de São Nicolau, em Lisboa. Colabora na revista literária "A Harpa". No ano seguinte nasce o seu filho José do Espírito Santo Bathaglia Ramos.

1876 é um ano de grandes mudanças. Depois de 6 anos dedicado a um projecto de ensino da arte da leitura, e agora com 3 filhos, João de Deus, preocupado com o analfabetismo do país, e tendo em pensamento as mães dessas crianças, a elas lhes dedica a "Cartilha Maternal". A cartilha tradicional, em vigor na altura, era pouco prática, de muitas lições repetitivas e nada apelativas exigindo grande exaustão das crianças, fator que contribuia para o analfabetismo de Portugal. Assim, João de Deus presta o maior serviço ao ensino português, tornando fácil e apelativa a aprendizagem da leitura e escrita, tornando Portugal num país em que a cultura chega a todos, pois todos a ela têm direito. Publica também este ano a colectânea poética "Folhas Soltas" e "A Palavra escrita". A Casa Rolland dá falência mas João de Deus continua o seu projecto e a "Cartilha Maternal" é acabada de imprimir na tipografia de António Madureira, sendo um sucesso e esgotando as várias edições muito rapidamente. Daqui em diante, a escrita de João de Deus passa a ter como objectivo o ensino.

João de Deus Ramos Júnior, o seu 3º filho, nasce em 1878. Em 1882, morre a sua meia irmã Maria com 63 anos. É também neste ano criada a Associação Escolas Móveis (actual Associação Jardins-Escolas João de Deus) com base na intenção de João de Deus de levar o ensino gratuito mesmo a quem não ia à escola e a quem não tivesse possibilidades financeiras, associação esta fundada por Casimiro Freire. Neste ano nasce Clotilde Rafaela, a filha mais nova de João de Deus. No ano seguinte é aprovada pelas Cortes a "Cartilha Maternal ou Arte da Leitura", passando a ser o método nacional de aprendizagem, estava a família a morar na Rua Alto do Marquês de Penalva, Predio Novo, 3º andar, entre o Largo do Rato e as Amoreiras. Em 1886 vão morar, novamente numa moradia alugada, na Rua de Sto António, nº 138, junto ao Largo da Estrela, mas aqui ficam apenas por dois anos, mudando-se então, e até ao fim da vida de João de Deus, para a Calçada Nova da Estrela, nº 13, 1º. A 2 de Agosto deste ano de 1888 é nomeado Comissário Geral do Método de Leitura Cartilha Maternal com o vencimento anual de 900 reis.

Com 63 anos, em 1893, é publicado e coordenado por Teófilo Braga e com prefácio do mesmo, "Campo de Flores", uma colectânia de poemas de João de Deus desde os tempos de estudante em Coimbra que o colocou entre os maiores cantores do amor do mundo. Passa o Verão deste ano numa casa em Cortegana, terra onde os seus cunhados tinham residência, escrevendo poemas e desenhando no estuque das paredes. Esta casa conserva ainda algumas inscrições e pode ser visitada pelo público.

A 7 de Março de 1895, é-lhe feita uma homenagem organizada pelos estudantes de Coimbra, Lisboa, Porto e Santarém, onde milhares de adultos e crianças juntando-se no Rossio, fizeram o percurso a pé até à casa de João de Deus em frente à qual lhe dedicaram canções e ofereceram presentes. Às 10 horas da manhã, o Rei D. Carlos associa-se a esta homenagem chegando de carruagem e entrando na casa do poeta (João de Deus já se encontrava debilitado por uma lesão cardíaca), que de tão comovido abraça o Rei ao mesmo tempo que este lhe coloca ao pescoço a insígnia da grã-cruz de San Tiago. No dia seguinte, no dia do seu 65º aniversário, à noite levam-no ao Teatro D. Maria II, onde do camarote da família real assiste a um espectáculo dos estudantes em sua homenagem.

Casimiro Freire, há muito que insistia para João de Deus publicar a "Arte da Escrita", mas isso implicava uma luta com os calígrafos, luta que já tinha travado a quando da "Cartilha Maternal" e que já não sentia forças para outra demanda. Porém, sentindo que a sua vida não se prolongaria por muito mais tempo, em Dezembro desse ano entra em negociações para publicar finalmente a "Arte da Escrita".


"Fique em silêncio eterno a minha lyra"

Em casa, às 9:45 de 11 de Janeiro de 1896, João de Deus, vítima de uma miocardite crónica, dá o último suspiro na companhia da sua esposa, filhos, do seu irmão Rev. Espírito Santo, Sr. Emygdio de Brito Monteiro, Casimiro Freire e Libanio Baptista Ferreira. João de Deus tinha dito ao seu irmão que tinha coisas para lhe contar, mas a morte antecipou-se. Contudo, ainda conseguiu tocar a sua viola toeira antes de falecer. A notícia corre rapidamente os diversos jornais do dia e no "O Século" de dia 13 pode ler-se, a respeito da expressão com que faleceu João de Deus:

"Face serena, tranquila e limpida - como sempre foi a vida d'este homem superior, alma feita de luz e de bondade, de carinhos e de amor. Ao fita-lo há no nosso espírito atribulado uma inesperada sensação de paz..." "...A meia noite de ontem procederam ao embalsamento os distinctos médicos Sousa Martins e Carlos Tavares, auxiliados pelo Sr. Rocha do Hospital de S. José".

Estes dois médicos vinham acompanhando o estado de saúde de João de Deus desde o início da sua doença.

O funeral realizou-se a 15 de Janeiro sendo a urna conduzida às 11:30 para a Igreja da Estrela. No dia 22, terminados os trabalhos de embalsamento, dá entrada no Mosteiro dos Jerónimos, honra excepcional mas em desarmonia com a modestia do seu caracter e provavelmente do seu desejo, pois num poema seu escreve: "Desejava dormir o sono eterno abrindo junto ao berço a sepultura".

Em 1914 foi finalmente publicada a obra "Arte de Contas" começada há tantos anos atrás por João de Deus mas incompleta. Foi Frederico Caldeira quem a terminou. A 12 de Janeiro de 1917 é inaugurado o Museu João de Deus Pedagógico e Artístico. Em 1930 é erguida, no Jardim da Estrela, uma estátua de João de Deus. Também Coimbra (na Av. Dr. Marnoco e Sousa), Faro (no Jardim Manuel Bívar ) e S. Bartolomeu de Messines (na Av. João de Deus ), homenagearam João de Deus erigindo estátuas do seu busto. A cidade de Faro faz também homenagem atribuindo ao seu Liceu o nome de Liceu João de Deus, actual Escola Secundária João de Deus, e Alameda João de Deus. Guilhermina, viúva de João de Deus, continua a dar aulas de alfabetização pelo Método João de Deus em casa até que vem a falecer aos 99 anos, em 1948. No dia 1 de Dezembro de 1966 o corpo de João de Deus é transladado do Mosteiro dos Jerónimos para o Panteão Nacional.

Sereno, bem humorado, inteligente e culto, devotado ao culto do amor pela mulher e por Deus, cantor, músico, poeta e pedagogo era tambem um bom desenhador.

Um dia, uma senhora pediu-lhe que desenhasse um crucifixo e ele fez-lhe a vontade mas quando ofereceu o trabalho à senhora que assistiu à sua execução ela insistiu que o acabasse traçando também a figura de Cristo. O artista sorriu e escreveu em baixo do desenho: "Non est hic. Surrexit." (Não está aqui. Ressuscitou.)

Obras consultadas

- Anuários da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra,
- Periódicos da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra,
Livros:
- O Algarve por J.Mimoso Barreto, 1972
- Algumas poesias suas pouco conhecidas precedidas de A proposito d'um poeta artigo escripto sobre João de Deus e sua obra em 1861 por Anthero de Quental notas de Rodrigo Velloso
- Adágios, Provérbios, Rifãos e Anexins, de Francisco Rolland: edição e estudo, Vol. 1, de Maria Teresa Sousa Bagão, Universidade de Aveiro, Deptº de Línguas e Culturas
- Notáveis Messinenses: Vivências e Contributos, Junta de Freguesia de São Bartolomeu de Messines 2009, artigo de António Ponces de Carvalho (descendente de João de Deus)
- João de Deus: Trajectos, Câmara Municipal de Silves
- Campo de Flores, João de Deus, coordenação de Teófilo Braga, 1893
- Cartilha Maternal, João de Deus, 1876
Sites:
- http://www.arqnet.pt/dicionario/
- http://jorgesampaio.arquivo.presidencia.pt/pt/palacio/presidentes/teofilo_braga.html
- http://www.infopedia.pt
- http://clientes.netvisao.pt/tipico/grupo/tocata/instrumentos_toeira.htm
- http://tv1.rtp.pt/programas-rtp/index.php?p_id=13923&e_id=&c_id=3&dif=tv
- http://guitarradecoimbra.blogspot.com/2006/07/joo-de-deus-joo-de-deus-ramos-1830.html
- http://www.educacao.te.pt/professores/index.jsp?p=167&idDossier=57&idDossierCapitulo=219&idDossierPagina=505
- http://revelarlx.cm-lisboa.pt/gca/?id=1127
- http://grandmonde.blogspot.com
- http://www.archive.org
- http://www.casarealportuguesa.org
- http://virtualandmemories.blogspot.com/
- http://www.teatro-dmaria.pt/
- http://rr.sapo.pt/informacao_detalhe.aspx?fid=96&did=109652
- http://www.igespar.pt/
- http://www.mosteirojeronimos.pt/
- http://www.joaodeus.com