Ataíde Oliveira

Francisco Xavier D'Ataíde Oliveira

N. 02 Out 1843 Algoz - F. 26 Out 1915 Loulé

Presbítero, Advogado e Escritor


De onde vem...
Na Universidade de Coimbra
Regresso ao Algarve
Tempos de escrita...
Adeus, notavel estudioso algarvio

De onde vem...

Filho de Joaquim Martins Oliveira e Francisca Xavier de Athaíde, humildes lavradores de Algoz. Francisco Xavier cedo mostrou vocação para a vida eclesiástica, e depois de se iniciar nos estudos, ainda na sua terra natal, transferiu-se para o Liceu de Faro onde terminou o ensino preparatório. Escrevendo-se hoje o nome Ataíde, convém deixar registado, no entanto, que na época o nome era escrito como Francisco Xavier d'Athaide Oliveira

Em Setembro de 1861, ainda com 17 anos, matricula-se no Seminário de S. José de Faro nas disciplinas de Retórica e Física. Dois anos mais tarde, em 1863, inicia o curso eclesiástico.

O Padre António José dos Reis, Vice-Reitor do Seminário, não favorece o aluno Francisco Xavier, considerando o seu comportamento repreensível, porém este padre era considerado muito austero. Mais tarde, Ataíde Oliveira escreve ao Padre pedindo perdão pelas partidas que pregava.

Em Dezembro de 1864, o Bispo do Algarve D. Inácio do Nascimento Morais Cardoso, entrega-lhe a Prima Tonsura e Ordens Menores. Em Maio de 1866 recebe do Bispo a Ordem de Subdiácono e, neste mesmo ano, termina o curso eclesiástico.

Para se poder matricular na Universidade de Coimbra era necessário fazer um exame de habilitação e para o realizar era necessário apresentar certidão dos exames de Português (curso completo), Francês, Latim, Latinidade, Filosofia Racional e Moral, Oratória , Poética e Literatura Clássica, História, Geografia e Cronologia, Matemática Elementar e Princípios de Física e Química, e Introdução à História Natural dos 3 Reinos: todos de Liceu de 1ª classe. Como no Liceu de Faro, que era então um Liceu Nacional (não Central), não podia obter todas estas certidões, inscreveu-se, ainda neste ano de 1866, no Liceu Nacional Central de Coimbra, para terminar as disciplinas de que ainda necessitava para o exame de habilitação.

Viajava por vezes até Faro e, em Dezembro de 1867, recebe do Bispo do Algarve a Ordem de Diácono. A estudar em Coimbra, em 1868 regressa ao seminário para o exame "Ciência e Capacidade", no qual foi aprovado e assim pode em Dezembro do mesmo ano receber, aos 25 anos, a Ordem do Presbítero pelo Bispo.

Terminados os estudos no Liceu de Coimbra, faz o exame de habilitação e apresenta então as Certidões dos exames Latinidade, Lógica, Retórica e História necessários à matrícula em Direito, juntamente com o pagamento de 14$400.


Na Universidade de Coimbra

Para se matricular em Teologia, no estado eclesiástico, precisou, além das Certidões já referidas, das certidões de Português 1º, 2º e 3º ano, Latim, Francês, Lógica, Matemática Elementar e Introdução feitos em Liceu de 1ª classe, um pagamento de 11$520 e, ainda, a Certidão de idade (atestado vita et moribus), certidões essas que obteve uns meses mais tarde; ainda assim matricula-se em ambos os cursos (Direito e Teologia) no mesmo ano lectivo de 1869 / 1870; morava então na Rua da Matemática, nº44, Coimbra.

No ano lectivo de 1870 / 1871, está em ambos os cursos no 2º ano, residente agora na Couraça dos Apóstolos, nº39. Em 71 / 72, entrando para o 3º ano de ambos os cursos, encontra-se no estado ordinário no curso de Teologia (até aqui esteve matriculado no estado eclesiástico). Em 11 de Novembro de 1871 é nomeado Capelão Simples da Capela da Universidade de Coimbra. A 5 de Março de 1872, pela manhã, a Capela foi visitada pelo imperador do Brasil D. Pedro II que, em seguida, assistiu a algumas aulas do curso de Teologia incluindo a aula de Theologia Dogmático-Polemica para as lições de Theologia Mystica em que se encontrava Ataíde Oliveira. Também a 14 de Julho de 1872, el-Rei D. Luís, a Rainha D. Maria Pia, o Príncipe Real D. Carlos e os Infantes D. Augusto e D. Affonso, visitaram esta Capela. Ataíde Oliveira, alcança o grau de Bacharel em ambos os cursos neste ano lectivo.

No ano lectivo seguinte, 1872 / 1873, exerce as suas funções de Capelão enquanto faz o 4º ano de Direito e Teologia. A 13 de Maio de 1973, El-Rei D. Fernando acompanhado do infante D. Augusto e da Condessa d’Edla visitaram a Capela e outros estabelecimentos universitários. Em 1873 / 1874 voltamos a encontrar Ataíde Oliveira no 4º ano de Teologia e no 5º ano de Direito, morador agora na Rua das Fangas, Correio Velho, obtendo a formatura em Direito a 11 de Junho de 1874. Ainda Capelão na Real Capela, termina o 5º ano de Teologia no ano lectivo de 1874 / 1875 e faz a formatura em 08 de Junho de 1875 aos 31 anos. Termina assim a sua estadia por Coimbra, e os seus três anos como Capelão, e regressa ao Algarve, para Loulé mais precisamente.


Regresso ao Algarve

Na indecisão entre exercer o sacerdócio ou seguir a advocacia, seguiu o seu amigo e conterrâneo Marçal Pacheco, de Loulé, e dedicou-se à advocacia tendo porém, ainda nesse mesmo ano de 1875, por insatisfação com esta actividade, desistido destas funções e voltado a sua dedicação para o sacerdócio. Concorreu a diversas paróquias do Algarve e em nenhuma conseguiu entrar. Recusado em todas as paróquias, talvez pelo seu estilo liberal que se manifestava inclusivamente vestindo-se à civil, e decepcionado com o que lhe acontecia nada mais poderia fazer se não voltar à actividade em Direito. Sempre manteve a sua fé e as suas obrigações como sacerdote.

Desde 1882 é ajudante no Registo Predial de Loulé e em 1885, com 42 anos, é nomeado Conservador Privativo do Registo Predial da Comarca de Loulé. É nesta fase que começa a ter mais disponibilidade económica e temporal para se dedicar aos seus estudos e investigações sobre o passado algarvio.

Em 31 de Março de 1889, sai o primeiro número do jornal “O Algarvio” fundado por Ataíde Oliveira com a colaboração de Joaquim António Teixeira. Este jornal, do qual ele era Director, dava a conhecer os ideais do Partido Regenerador, no qual ambos eram filiados, mas continha também artigos que davam a conhecer alguns dos estudos por ele feitos sobre o passado algarvio. Pouco tempo depois deixou as funções de director do jornal.


Tempos de escrita...

Em 1897, tinha já 53 anos quando publicou os “Contos Infantis” para meninas e para meninos. O sucesso desta publicação foi bastante notável motivando Ataíde Oliveira a continuar a publicar os seus escritos. Não foi apenas este sucesso que o motivou, teve também o incentivo de muitos que apreciavam os seus estudos e escritos, como por exemplo Teófilo Braga, seu amigo e colega de Direito em Coimbra, pois proporcionaria à cultura do país uma maior riqueza. Assim, Ataíde Oliveira, não mais parou de escrever, tendo publicado vários livros entre eles:

  • Contos Infantis - 1897
  • As Mouras Encantadas e os Encantamentos do Algarve - 1898
  • Contos Tradicionais do Algarve I - 1900
  • Biografia de D. Francisco Gomes do Avelar, Arcebispo-Bispo do Algarve - 1902
  • Contos Tradicionais do Algarve II - 1905
  • Monografia do concelho de Loulé - 1905
  • A Monografia de Algôs - 1905
  • O Cancioneiro e Romanceiro do Algarve - 1905
  • Monografia do concelho de Olhão da restauração - 1906
  • A monografia de Alvôr - 1907
  • História Eclesiástica do Bispado do Algarve - 1908
  • Monografia de São Bartolomeu de Messines - 1909
  • Monografia da Luz de Tavira - 1913
  • Monografia de Estoi : a vestuta Ossonoba - 1914
  • Monografia do concelho de Vila Real de Santo António -

Re-edições:

  • A monografia de Alvor - 1970
  • Monografia do concelho de Loulé - 1986
  • Monografia do concelho de Olhão - 1986
  • Monografia do Algoz - 1987
  • Monografia de São Bartolomeu de Messines - 1987
  • Monografia de Estombar, concelho de Lagoa - 1987
  • Monografia do Concelho de Loulé - 1989
  • Monografia da Luz de Tavira - 1991
  • As Mouras Encantadas e os Encantamentos do Algarve - 1994

e artigos em jornais como:

  • O Instituto
  • O Algarvio [Fundado por ele]
  • Os Ribaneiras
  • A Provícia do Algarve
  • Correio do Algarve
  • O Primeiro de Maio
  • O Algarve
  • Notícias de Loulé
  • O Provinciano

Há ainda, segundo alguns historiadores, vários manuscritos que ficaram por publicar e dos quais se desconhece o paradeiro. Outros ainda, o seu paradeiro parece ser conhecido mas não divulgado nem tornado público, por razões que desconheço.

Desenho representativo de Ataíde Oliveira com o seu chapéu de côco, charuto e bengala

Muito considerado em toda a província e especialmente em Loulé, a terra que o adoptou, quem se recordava de o ver dizia que ele era uma figura muito notória, bem vestido e respeitado. À noite podíamos encontrá-lo na Sociedade Recreativa em Loulé.

Admitido no Instituto de Coimbra (instituição científica), em Outubro de 1902 colabora na revista intitulada “o Instituto” com um capítulo inédito da Biografia de D. Francisco Gomes de Avelar. Em 1911 é eleito sócio da Academia de Ciências de Lisboa.


Adeus, notável estudioso algarvio.

Faleceu em Loulé na noite de 26 de Outubro de 1915 rodeado de família e amigos.

Em 10 de Maio de 1916, a Câmara Municipal de Loulé honra a sua memória com o seu nome na toponímia da vila. O Dr. Mário Lyster Franco sugere uma homenagem mais honrosa a tão grande personagem algarvia com um monumento que foi inaugurado a 10 de Agosto de 1930 com a presença do Governo Civil, do presidente da Câmara Dr. Manoel Mexia de Matos e o Dr. Lyster Franco.

Obras consultadas

- Anuários da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra,
- Periódicos da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra,
- As Mouras Encantadas e os Encantamentos do Algarve (Breve Biografia por João Valadares d'Aragão e Moura),
- Academia das Ciências de Lisboa
- Carta Apostólica em Motu próprio Ministeria Quædam, Papa Paulo VI, 15 de Agosto de 1972 - Vaticano (Versão portuguesa)
- The Original Catholic Encyclopedia